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Blog da Sin

PODE ME CHAMAR DE PRETA

Um dia, eu estava folheando a revista W.I.T.C.H. com minhas amigas vizinhas, lá no início dos anos 2000. Éramos crianças de 10 ou 11 anos, lendo sobre as cinco bruxinhas adolescentes, personagens de uma revista super famosa entre a criançada da época. Para minha surpresa (e alegria), entre elas, estava Taranee:

uma personagem negra e muito determinada. Usar óculos também foi uma grata coincidência – e, finalmente, eu poderia escolher uma personagem que se parecia comigo, nas brincadeiras com as amigas.

Não há como negar: a representatividade negra na cultura pop e publicidade não é significativa até os anos 2010. Eu fui uma das únicas alunas negras da sala de aula, na universidade; a única em uma redação de rádio e no departamento de criação. É engraçado falar sobre representatividade em ambientes onde se trabalha com comunicação social. E, mais engraçado, é colocar pessoas para falarem com um público tão diverso, sem ter local de fala.

É engraçado, porque a maioria da população do Brasil é de mulheres e negros.

No Nordeste, então, nem se fala. Avançamos em quase um milênio de sociedade brasileira, mas o racismo e o machismo – velados ou descarados – são realidade em cada canto desse país de meu Deus.

Mas temos boas notícias: essa representatividade tem aumentado muito nos últimos anos. Estamos discutindo mais, estamos enfrentando o racismo e o machismo de frente e sem temer. As mulheres agora têm mais voz, têm mais apoio e têm mais cor. Estamos fortalecendo e escurecendo os espaços públicos, e isso é ensurdecedor.

Ser mulher na publicidade, e em todo e qualquer ambiente de trabalho, é corajoso, pois ainda somos a minoria em cargos de gerência, a maioria de nós não decide o viés das campanhas aprovadas por clientes homens e brancos. Hoje, tenho a sorte de trabalhar com várias mulheres incríveis e que me dão forças para ir em frente nessa profissão que ainda tem tanto o que evoluir. Infelizmente, nem todas têm essa sorte, mas nossa rede globalizada de mídias sociais está aí a nosso favor para nos amarmos virtualmente (um salve para Jout Jout!).

Recentemente, fui chamada para participar de uma campanha sobre o Dia da Consciência Negra. Tive o reconhecimento dos meus colegas – e também sou a única mulher negra redatora. Se você que está lendo também é negra, deve entender como é bom ser reconhecida como mulher negra. É reconhecer minha história, meus antepassados, minha pele e meu sangue. Mariana nunca foi morena, nem mulata. Pode me chamar de preta.

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